Reflexões do 50º. Encontro Anual do National Mastitis Council dos EUA
Paulo Fernando Machado, Vice Presidente do CBQL
Professor Titular – Bovinocultura de Leite, ESALQ-USP.
O NMC (Natitonal Mastitis Council) dos EUA celebrou 50 anos de existência em 2011. A data foi comemorada com um simpósio nos dias 23 a 26 de janeiro, deste ano, na cidade de Arlington, Virginia, EUA. Como parte do simpósio, houve uma série de apresentações a respeito do futuro do negócio leite naquele e em outros paÃses. A conclusão final dos palestrantes foi que o futuro do negócio está nas mãos dos consumidores. Isto, na verdade, não é muita novidade, porque vivemos em uma sociedade capitalista, em que as leis de mercado regem as leis da sociedade. O ponto chave para nós, segundo os palestrantes, é entendermos a nossa sociedade e as pessoas que fazem parte dela. A partir da compreensão das necessidades dos consumidores poderemos fazer com que sejamos entendidos e, com isso, fazermos prosperar nossos negócios.
Dentro desta linha de raciocÃnio, o Dr. Stanford Erwine, da Dairy Management Inc., uma organização criada com a missão de promover o leite nos EUA, apresentou uma série de dados coletados pela sua organização e por outras, mostrando como as pessoas se comportam e pensam atualmente e como eram à 50 anos atrás. Um resumo dos dados e das observações é o que segue:
- Hoje me dia somente 1,8% da população americana vive no meio rural, o que contrasta com mais de 12% em 1950 e mais de 69% em 1840;
- 67% dos graduados em universidades são mulheres e, em 2018, elas serão a maior parte dos trabalhadores;
- As mulheres dão preferência para alimentos mais saudáveis, orgânicos, naturais, que não degradam o meio ambiente;
- Em 2020 mais de 47% da população americana terá mais de 50 anos de idade;
- Em uma pesquisa recente constatou-se que mais de 50% de 50.000 pessoas consideram animais de estimação como parte da famÃlia; e que mais de 50% dos gatos e 33% dos cachorros dormem na cama com seus donos;
- Que, na idade de 21 anos, a geração atual já viu mais de 30.000 horas de televisão e que já enviou mais de 250.000 e-mails;
- Que as pessoas acreditam mais em seus pares do que em cientistas, governo ou empresas;
- Que o leite e seus derivados são alimentos saudáveis e importantes para crianças e idosos.
Em resumo, os dados apresentados demonstram que os consumidores não possuem nenhuma informação sobre como o leite é produzido, que estão conectados a veÃculos de comunicação e que são preocupados com a qualidade dos alimentos que consomem. Além disso, que valorizam o meio ambiente e que consideram os animais quase como seus pares.
A partir destas observações, o Dr. Erwine, juntamente com o Dr. Lormore da Pfizer e Dr. Wustenberg da Tillamook Cheese, colocaram que é fundamental que a cadeia do leite se posicione de uma maneira proativa junto à sociedade, transmitindo uma mensagem única que veicule como o leite é produzido, que sua qualidade é garantida, que os animais são bem cuidados e que não se está degradando o meio ambiente.
Esta mensagem precisa ser colocada, preferencialmente, por pessoas alheias ao negócio, incluindo-se aà os cientistas, para que, de fato as pessoas acreditem nelas. Eles ressaltam que os 03 pontos chaves que precisam ser transmitidos são:
1 – Que o leite possui qualidade – evidenciado através de baixa concentração de bactérias e de células somáticas;
2 – Que o leite é livre de resÃduos como antibióticos e medicamentos nocivos à saúde pública – atestado por partes não ligadas diretamente aos produtores e a indústria, e,
3 – Que os animais são bem cuidados – evidenciado através de indicadores quantitativos como injúrias, idade média, condição corporal, etc., e não por opiniões subjetivas.
Para nós, brasileiros, esta mensagem é extremamente importante e oportuna. Estamos na iminência de reduzirmos o limite legal da contagem de células somáticas para 400 mil e a de contagem bacteriana para 100 mil (a parir de julho de 2011) e começam a surgir lideranças solicitando que a data seja postergada. Isto é um grande risco para a cadeia do leite. Se a sociedade souber (e saberá – vide a reportagem recente da Folha de São Paulo) que se está propondo alteração na lei para permitir que seja comercializado leite que em outros paÃses é impróprio para consumo e isto por questões econômicas, de sobrevivência no negócio de uma pequena parte da sociedade brasileira em detrimento da grande maioria da sociedade, haverá um fenomenal boicote ao consumo de leite. Isto é extremamente perigoso, pois a competição pelo espaço promovida por outros tipos de bebidas como refrigerantes e sucos é imensa. Toda a credibilidade da cadeia será abalada. Os bons produtores não podem permitir que isto aconteça. Eles precisam lutar para que a qualidade do leite seja uma realidade para todo o leite consumido pela população. É o mÃnimo que se deve exigir para quem precisa convencer alguém a comprar seu produto e que vai fornecê-lo, como alimento, a seu filho.